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18 de Junho de 2018

A Importância do Desenvolvimento Crítico-reflexivo na Educação Básica

por Laura F. Brasil; Natália F. A. Teixeira e Raimundo S. Neto

Raimundo Sousa Neto, Estudante de Direito
Publicado por Raimundo Sousa Neto
há 9 dias

  O presente trabalho surgiu da inquietação de estudantes de graduação em Direito durante a execução do projeto Entrelinhas, onde a crítica e a reflexão foram trabalhadas com estudantes do ensino básico municipal de Palmas (TO) através de oficinas e debates.

  Desde a Antiguidade e a Idade Média, muito se ganhou e foi construído em relação ao desenvolvimento da educação básica, especialmente no que toca a este tipo de educação em relação às crianças e à sua identidade como indivíduo. Não era considerado o momento certo em que se deveria aprender e ainda menos o que se deveria aprender. A educação era um privilégio de difícil acesso, mesmo aos influentes e respeitados daquelas épocas, concentrando-se na monarquia e nos monastérios.

  O viés da educação como formação pessoal e intelectual não tinha espaço nas sociedades e comunidades de outrora, adstritas apenas ao caráter profissionalizante, que envolvia o aprendizado de um ofício, como era o caso da sociedade espartana:

       A instrução para os espartanos se dava em um        contexto peculiar que não focava a leitura e a        alfabetização, observa-se que poucos nobres sabiam        ler e contar. A valoração e o direcionamento        dirigiam-se para a guerra. (COSTA e SANTA        BÁRBARA; 2008, p. 2)

  Era ainda usada como mecanismo de controle e conformação social, especialmente no período medieval, quando a igreja católica assumiu o controle dessa área “essas escolas formariam as massas campesinas com as doutrinas cristãs e seu intuito era tornar essas famílias dóceis e de fácil conformação” (COSTA e SANTA BÁRBARA; 2008, p. 10).

  Com o advento da modernidade, várias barreiras foram vencidas pouco a pouco, ao decorrer dos séculos. Cada barreira ultrapassada era uma conquista para as crianças, eram agora pensadas a expansão e a qualidade do ensino:

      [...] o colégio iria se dedicar à formação da juventude,       necessitando agora de uma disciplina constante, de       origem religiosa, diferente de uma violência de uma       autoridade mal respeitada, e que difere também a       escola medieval da escola moderna. (FORMIGONI,       2010, p.146)

  Todavia, ainda há muito mais para refletir e discutir sobre a fórmula de concepção da educação básica e onde ela necessita de mudanças e aprimoramentos; principalmente no ensino como construção de pensamentos, não meramente como a repetição de informações isoladas de uma análise ponderativa e axiológica.

  Além disso, no sistema de educação brasileiro o método de ensino predominante é o tradicional, no qual o foco está no professor, que retêm o conteúdo e passa este aos alunos através de aulas expositivas. Este método utiliza bastante de cartilhas e apostilas e tem como principal objetivo o sucesso dos alunos nas provas.

  Entretanto, com o advento da internet já possuímos acesso amplo à informação, não havendo mais a necessidade de decorar várias páginas de livros para realização de provas. A prioridade agora é saber como utilizar toda essa informação, para isso é necessário o desenvolvimento da capacidade crítica reflexiva dos alunos através de discussão de temas, de interpretação. Deixando de haver somente aulas expositivas, mas também atividades participativas que despertem a capacidade crítica dos alunos.

  Dessa feita, entende-se que para formação de um leitor crítico, sócio- cultural e intelectualmente, o desenvolvimento cognitivo desses alunos estará atrelado à uma ação prática e eficiente da leitura nas escolas de modo que saibam extrair o significado dos mais diversificados textos e gêneros. A discussão começa na indagação da eficiência de um ensino em que apenas ler, puro e simplesmente, é o bastante para a formação intelectual do aluno da educação básica. E é nesse sentido que entende-se a importância do assunto abordado, onde será visto por uma perspectiva de estudantes que realizaram trabalhos na educação básica pública dentro desse processo reflexivo e crítico.

  O desenvolvimento do senso crítico é um dos principais objetivos presentes nos parâmetros curriculares nacionais, já que neles se torna clara a intenção de promover um ensino voltado para a formação de cidadãos. Além disso, o trabalho com a argumentação é considerado fator relevante para o exercício de cidadania. Costuma-se afirmar que, no século XXI, o aluno precisa ser instigado a ser o protagonista de sua aprendizagem tendo assim o dever de formar opinião própria. Entretanto, para que aconteça tanto o protagonismo quanto a formação de opinião é necessário que o aluno desenvolva pensamento crítico, sendo este o alicerce. Tanto a escola quanto a família precisam estimular reflexões para que a criança consiga tirar suas próprias conclusões.

  Por trás desse modelo educacional tradicional existe toda uma estrutura em termos de metodologias, estratégias que sustentam abordagens de ensino baseadas na memorização. Para que os alunos formem opinião, a escola precisa sair desse modelo engessado onde disciplinas como filosofia, sociologia e história são ministradas sem o exercício de reflexão, em que os professores recorrem ao sistema de copiar e colar, a aula tem uma disposição expositiva de modo que os alunos não questionem o que está sendo passado, não interagem, exigindo dos alunos que decorem o conteúdo.

  Sabendo que o professor, instrumento do conhecimento, tem papel fundamental nesse despertar da consciência crítica e reflexiva, existem algumas estratégias a fim de estimular esse desenvolvimento como promover o questionamento, levando questões instigantes tornando a aula expositiva em um espaço para diálogo; promover discussões com temas que possibilitem a existência de posicionamentos diferentes para o exercício da argumentação; oferecer embasamento para as argumentações com material motivador, o uso da informática quanto recurso instrucional também é válido; diversificar as aulas e abordagens visando explorar os meios para o campo do aprendizado; utilizar conteúdos que dialoguem com o universo do aluno de modo que ele se sinta familiarizado para começar a participar do diálogo; promover o desenvolvimento da autocrítica a fim de que o aluno possa sempre avaliar seu próprio discurso, dessa forma as ideias preconceituosas e fixas podem ser desconstruídas e opiniões podem ser mudadas.

  Dessa feita, entende-se que muitas são as formas de abordagens e estratégias para que se possa sair do modelo tradicional de educação, tendo sempre a leitura como aliada. É importante salientar que ter um ensino voltado para essa formação de cidadãos ensinará as crianças a terem um papel ativo na sociedade, inserindo pensadores capazes de questionar e formar opiniões no mercado de trabalho, estando capacitados para tanto.

  Ademais, no que tange à ausência de uma cultura dialética aliada a uma postura crítica, inerentes a uma reflexão de todo o contexto social onde os estudantes estão inseridos, logicamente se vislumbra uma atitude de conformismo que é exponencialmente tóxica à evolução da sociedade como organismo.

  É nítido que todas as evoluções e revoluções ocorreram a partir de um questionamento da maneira como eram feitas as coisas, posto que é assim que se dá a liberdade ao pensamento individual a contribuir com o aprimoramento do coletivo, sendo este aperfeiçoado pela contraposição do modo como era executado e da proposta de como deveria ser. De tal maneira ocorreu a Revolução Francesa de 1789, a partir de um movimento que indagava as bases do poder absoluto do rei. Também foi assim na Revolução Industrial, onde objetivava-se um grande aumento na produção a partir de sua automatização.

  Esses, entre outros acontecimentos transformadores, evidenciam a imperativa necessidade do exercício constante de uma reflexão crítica, questionadora das instituições e seus fundamentos, para que seja fomentado o embrião do crescimento do corpo social. É do indivíduo que parte esse fator inicial, alcançando os pensamentos dos demais cidadãos. Nesse sentido, trabalha-se a ideia de polis, a cidade onde a participação ativa dos cidadãos em suas construções e reformas é propulsora para um exercício genuíno da democracia.

  Todo o conceito de polis remonta ao padrão grego de organização política e comunitária, ao incentivar a dialética como o caminho para se alcançar uma melhor solução para todos os desafios surgidos na vida em comum, discutidos habitualmente em assembleias públicas. Não é sem mérito que a Grécia era o centro cultural e científico da época, muito além das nações vizinhas, definindo o real conhecimento como produto de seu debate – surgido a partir de questionamentos valiosos de vários de seus integrantes -.

  A ordem posta, pois, deve ser objeto de contínua ponderação, especialmente por parte da academia, responsável por conceber não apenas profissionais inertes às coisas à sua volta - como que robotizados -, mas especialmente pensadores. Agentes estes diretamente envolvidos com a acepção aristotélica de cidadão, aquele que participa dos poderes do Estado, da comunidade política, visando o bem comum.

  Em contraponto, a conformação com a estaticidade dos institutos estruturais gera um adormecimento na consciência coletiva e, por conseguinte, a estagnação de todo um processo de cooperação que ambiciona a melhoria da conjuntura coletiva. Tal consciência é concebida e formada no âmbito escolar, no qual investiga-se a forma como se davam os empreendimentos para se ponderar a conveniência de sua continuidade ou a carência de um progresso.

  Ainda há de se falar que essa deficiência na formação é geradora de uma postura profissional incoerente com a demandada pelo mercado, por estabelecer a mecanicidade na operacionalização das tarefas, inimiga de toda inovação e criatividade, além de alienadora do indivíduo. Este, pois, é dessocializado de seu ofício e alheio, de certa forma, ao resultado do esforço empenhado.

  A solução para o combate de toda essa problemática está na educação; a educação como veículo de mudança, como agente social de transformação, como instrumento de liberdade e participação efetiva. O aluno que aprende a questionar e refletir sobre o que vive, sobre o que vê, passa a se enxergar como também potencial impulsionador da realidade social. Alguém que não apenas apreende o que lhe é ensinado, mas o relaciona em seu contexto e tem a isso uma reação, uma resposta. É, pois, nesse sentido que estatui-se que a melhor maneira de ensinar é, definitivamente, ensinar a pensar.

  Conforme assimilam Frota, Lucion e Silva (2012) é no pensamento de Saviani (1999) que a perspectiva do aluno como cidadão transformador da sociedade em um olhar crítico e uma postura ativa tem seu destaque.

  É mister que seja reconhecida a necessidade da implementação no sistema educacional, especialmente no que diz respeito ao ensino básico, de mecanismos e abordagens que fomentem a formação de uma consciência coletiva e coletivamente responsável de seu papel na evolução das estruturas concebidas e conhecidas. Percebendo-se também o uso da teoria interacionista, onde o desenvolvimento humano ocorre simultaneamente à aprendizagem, com um docente consciente como mediador.

  A análise de dados como o IDEB (Índice de desenvolvimento da educação básica), SAEB (Sistema de avaliação da educação básica), além do desempenho dos alunos no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), dentre outras pesquisas mostram os resultados de um sistema de educação atual tem atingido.

  Sobre o ENEM, foi realizada uma pesquisa realizada com os resultados dos alunos no nesta prova, mostra que umas das principais dificuldades dos alunos é abordar propostas de intervenção nas redações. Isso porque durante a formação dos alunos, o foco não é o desenvolvimento do pensamento crítico-reflexivo, são poucos os debates sobre os problemas da sociedade, a participação do estudante na sala de aula é mínima, uma vez que a metodologia de ensino é a expositiva. Além disso, os alunos também demonstram dificuldade em relação às questões do ENEM, reclamam do tamanho dos textos das questões e têm dificuldade com a interdisciplinaridade das questões, isso demonstra uma deficiência da interpretação de texto dos estudantes.

  Também foi efetuado um estudo acerca do analfabetismo, pelo INAF (Índice Nacional de Alfabetismo Funcional) com pessoas de 15 a 64 anos, que chegou à conclusão que cerca de 27% da população brasileira é analfabeta funcional. Ou seja, são capazes de ler textos curtos, escrever e realizar operações matemáticas simples, entretanto não conseguem interpretar textos e realizar operações matemáticas mais elaboradas. Esse estudo compara a quantidade de analfabetos entre 2002 e 2015, que diminuiu cerca de 10%, mas ainda está longe de ser ideal.

  Além dos estudos acima expostos, tem-se ainda o IDEB e o SAEB, que avaliam o ensino básico. O índice do IDEB das escolas do Tocantins varia de 4,1 a 4,5 tanto em matemática quanto em português, enquanto a média do Brasil está entre 4,6 e 5,0. Já no SAEB realizado no ano de 2015, o Tocantins teve uma média inferior à média nacional, esta foi de 252 e 256 em matemática e português, respectivamente, já a do Tocantins de 242,8 e 247,7.

  Esses índices demonstram que o Brasil inteiro, e acima de tudo o Estado do Tocantins, que está abaixo da média nacional, precisa de melhorias na educação e no método de ensino. Isso porque, são verificados baixos índices nas disciplinas de português e matemática, matérias essenciais para a formação do indivíduo, não só academicamente, mas também como cidadão e profissional.

  O que se pode analisar, principalmente com os índices de português e as dificuldades com ENEM, os alunos demonstram um déficit na leitura e na capacidade de interpretação. O que deve ser superado através do desenvolvimento do pensamento crítico dos alunos, que está sendo trabalhado já nas escolas através de debates e projetos. Com o intuito de formar indivíduos capazes de se posicionar e participar ativamente na sociedade, acabando com a cultura do conformismo.

  Como citado anteriormente, é indispensável a inovação das abordagens do saber de modo que as aulas abandonem o verticalismo e tornem-se interativas e horizontais, para que o tradicionalismo, que tanto engessa a absorção do conhecimento, se encaminhe rumo a uma evolução efetiva na prática educacional.


REFERÊNCIAS

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Parâmetros Curriculares Nacionais: Introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: Mec/sef, 1997. 82 p.

BRASIL. Sistema de Avaliação da Educação Básica. 2016. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_basica/saeb/aneb_anresc/resultados/resumo_dos_resultados_saeb_2... >. Acesso em: 15 mar. 2018.

COSTA, L.; SANTA BÁRBARA, R. A educação da criança na Idade Antiga e Média. In: VII JORNADA DE ESTUDOS ANTIGOS E MEDIEVAIS, Maringá, Universidade Estadual de Maringá, 2008. Anais, p. 1-15.

FORMIGONI, Salles Moraes de Beatriz. Da Idade Média a Idade Moderna: um panorama geral da história social e da educação da criança. UNESP. p. 137-149.

LUCION, Cibele da Silva; FROTA, Paulo Rômulo; SILVA, Richard da. Teorias da Aprendizagem: Contribuições para a prática docente em Ciências Naturais. Revista Linhas, Florianópolis, v. 13, n. 2, p.181-199, set. 2012. Jul/dez.

MARIANI, D.; OSTETTI, V.; PIGNATO, C. A evolução do analfabetismo funcional no Brasil. 2016. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/grafico/2016/11/21/A-evolu%C3%A7%C3%A3o-do-analfabetismo-funcional-no-Brasil>. Acesso em: 15 mar. 2018

NUNES, Flaviana Gasparotti. Professores e Parâmetros Curriculares Nacionais: Como está essa Relação? RA’EGA – O Espaço Geográfico em Análise. 2007. v. 24. p. 92-107.

VELLEI, Carolina. Pesquisa mostra dificuldade de estudante para apresentar soluções aos problemas propostos na redação do Enem. 2017. Disponível em: <https://guiadoestudante.abril.com.br/enem/pesquisa-mostra-dificuldade-de-estudante-para-apresentar-solucoes-aos-problemas-propostos-na-redacao-do-enem/>. Acesso em: 22 mar. 2018

10 Comentários

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Excelente texto! Ainda tenho esperanças de que a educação mude o futuro se nosso país porque esse é o único caminho. 👏 continuar lendo

Parabéns pelo trabalho!! É nítido que precisamos de melhoras em nossa situação mas prefiro acreditar que as coisas vão melhorar e ainda temos esperança disso! 👏👏👏👏👏 continuar lendo

Excelente trabalho! 😊
Parabéns continuar lendo

Excelente Texto, parabéns. continuar lendo